USHUAIA 2009 - “
Viagem ao fim do mundo”
De Christian Rosselini Silva
I. O início
A viagem começou
com a difícil decisão de trocar de moto:
deixar de usar uma XT 600E para viajar com uma moto
recém lançada no mercado, portanto pouco
conhecida pelos motociclistas, menor, menos potente
e não tão robusta, a XTZ 250 Lander.
Esta decisão aconteceu devido a alguns problemas
ocorridos na viagem de 2006 com a XT, como autonomia,
onde fiquei duas vezes quase sem combustível
na estrada, peso da moto para andar muitos quilômetros
no rípio, idade do equipamento, entre outros
fatores.
Tomada a decisão, que futuramente se mostraria
acertada, o próximo passo foi adequar a nova
moto ao trabalho pesado do longo trajeto. Então,
fiz algumas viagens curtas pra me familiarizar e observar
os pontos que deveriam sofrer mudanças, foram
eles: apesar da economia, ela necessitava de mais
autonomia, uma proteção aerodinâmica
eficiente, um lubrificador de transmissão,
um pneu mais duro, voltado mais para o asfalto, bagageiro,
suporte para as malas laterais e tudo isso sem alterar
muito o peso total da moto, pois sua capacidade de
carga total não passava dos 170 kg. Assim,
foi sendo feito passo a passo até ficar pronta.
Começamos a organizar a bagagem cerca de um
mês antes. Durante a montagem da bagagem tive
que deixar muita coisa, devido ao fator peso. Assim
planejamos sair no primeiro dia do ano novo, escolhido
de maneira estratégica, pois, o primeiro trecho
da viagem incluía a BR 116 em direção
a Minas Gerais, muito movimentado com trânsito
pesado de carretas, e como neste dia a maioria dos
motoristas estariam descansando com suas famílias
a estrada estaria mais tranqüila. Bingo!!! Com
muita gente ainda dormindo devido à ressaca
do reveillon, saímos às 8 da manhã,
acompanhados de dois integrantes do moto grupo, Moisés
e Deraldo, até a cidade de Santo Estevão.
A estrada tranqüila, com pouquíssimo movimento,
deste modo, seguimos até Minas. Porém
percebi que havia algo de errado com a moto. Em velocidade
de cruzeiro ela balançava muito, como se houvesse
alguma roda desalinhada. Chequei as rodas e nada,
então percebi que havia algo de errado com
o freio traseiro. Constatei um empeno no disco, “Que
mer...!!” pensei. Em pleno um feriadão,
onde resolveria este problema? Mesmo assim rodamos
700 km neste dia. Dia seguinte, uma sexta-feira, parei
em uma oficina pra ver o que fazer e o mecânico
foi enfático: “tem que trocar”.
O problema era: Onde?!! Paramos em T. Otoni, concessionária
fechada?! Seguimos até G. Valadares e lá
tentamos resolver. Levaram para um torneiro, e tentaram
diminuir o empeno, conseguiram, mas mesmo assim ficou
um pouco, o suficiente pra me deixar preocupado. A
causa deste empeno, foi a substituição
do pneu original por outro mais duro em um borracheiro,
que descuidadamente, deve ter colocado o disco apoiado
no chão pra fazer a troca do mesmo, e o resultado:
Uma tarde quase inteira parado na oficina esperando
resolver o problema e que não resolveu. O torneiro
foi a alternativa encontrada, porque, aconteceu o
que eu já temia, disco de freio não
é peça de estoque, ou seja, não
tinha pra trocar.
Seguimos mais alguns km na tentativa de minimizar
o prejuízo de tempo provocado pela parada na
oficina (4 horas). Assim aconteceu outro imprevisto,
começou a chover forte no começo da
noite, fomos forçados a parar no primeiro hotel
que tivesse vaga (!!!), isso mesmo...vaga pra dormir,
estavam todos lotados e lá pelas 21:00, com
muita chuva, entramos na cidade de Nova Era, onde
encontramos vaga. Pela manhã, pegamos a estrada
com o dia nublado. Passamos por BH, onde começaram
algumas pancadas de chuva. Entramos na Fernão
Dias, com chuva, e depois muita chuva, em seguida
tempestade até Pouso Alegre. Passamos por uma
região belíssima, o sul de Minas, já
elogiado em outras viagens. Chegamos em Piracicaba-SP,
já a noite. A única coisa digna de nota
foi o preço absurdo que cobraram no hotel.
Dia seguinte, debaixo de chuva, seguimos por Botucatu
até a Castelo Branco, pra sair em Ourinhos-SP
e entrar no Paraná e pernoitar em Mamborê.
Pela manhã, rodamos os quase 300 km que faltavam
até Foz, para fazer a revisão, dormir
e entrar na Argentina no outro dia. Na revisão,
deram um trato na moto que a deixaram nova, e o mais
importante: trocaram o disco de freio que continuava
com um empeno, pegando na pastilha. Para isso, sacaram
um de uma Lander X que ainda estava na caixa. Providenciei
a carta-verde e tudo que ainda faltava, pronto, vamos
para a segunda parte da viagem.
II.
Gringos!
Entrar
em outro país é sempre uma mistura de
sensações como: euforia, medo, ansiedade,
realização, etc. Todos os pensamentos
passam por sua cabeça ao mesmo tempo...tipo:
” Com tantos imprevistos, não será
melhor voltar?” Logo vem outro “Já
vim até aqui, agora vou adiante!!”...”Será
que esta moto agüenta mesmo? O motor é
robusto, não tenho que me preocupar!!!...e
se eu me acidentar, quem vai me ajudar? E se a moto
quebrar em um lugar que não tenha auxílio?
E se eu não puder consertar?”... e muitos
outros. Como se fosse o anjo e o diabinho, brigando
no seu subconsciente, nada mais do que a razão
e a emoção degladiando dentro de você,
onde os instintos afloram e sua mente fica aguçada,
nos sentimos como um animal cruzando um território
desconhecido, sendo vigiado e acuado, mesmo em campo
aberto, é mais ou menos isso.
Depois essa sensação passa e nos sentimos
mais relaxados e a vontade. Os muitos quilômetros
do extremo norte argentino vão passando, com
muito calor, até chegar em Paso de los Libres.
Hospedagem cara, compensada com uma noite bem dormida,
pé-na-estrada novamente, nos aproximamos da
região de Concórdia.
Quando avistei uma blitz da policia caminera, fomos
parados. Me pediram todos os documentos. Neste momento
percebi que tinha algo de errado no ar, principalmente
quando me pediram estojo de primeiros socorros, que
prontamente apresentei, “mata-fuego?”...
me senti roubado nesta hora...me fiz de desentendido,
ai o policial endoidou. Tentou me explicar com mímicas,
gestos, só faltou desenhar num papel, até
que ele lembrou que tinha por escrito em português
e me mostrou. Quando eu disse que não tinha,
ele sorriu e disse “tenho que prender sua moto,
aplicar uma multa, que deverá ser paga aqui
e agora, no valor de $1.100,00 pesos!!! (Pensei: só
não é mais ladrão porque é
um só!! Fora os palavrões que não
posso escrever aqui!!!). Mantive a calma e disse logo
que não tinha como pagar porque não
tinha dinheiro, só cartão de crédito...”
vocês tem a máquina de cartão?”.
Aproveitei pra me divertir com a situação,
pois, estava mais favorável pra eles.
Então, havia duas motos oficiais paradas na
blitz. Resultado, me veio uma curiosidade de olhar
pra ver se tinha nas deles, eu sabia que não
teria, mas... Bingo novamente! Ai eu tirei minha casquinha...”
Me mostre o mata-fuego da sua moto pra que eu possa
ver como ele é, afinal eu não conheço”.
O cara mudou de cor, e numa tremenda saia justa, começou
a gaguejar e tentar explicar com uma desculpa mais
esfarrapada do que a outra, “e que o equipamento
ficava na viatura”, e tal, e se enrolou todo,
resumindo, peguei ele no pulo. Só que eu sei,
que se eu resolvesse engrossar, ele inventaria alguma
outra maneira de me sacanear e o jeito foi negociar.
Baixaram a multa pra “míseros“
$800,00 pesos, $400,00, $200,00 virou um leilão
invertido, ofereci $10,00; $20,00; até chegar
em $50,00 pesos que pra meu azar, não tinha
nenhuma cédula neste valor. Dar uma de $100,00
e pedir o troco, nem pensar, então tive que
deixar o troco também.
Depois deste episódio, entendi porque eles
nos cobram o “mata-fuego”, deve ser pra
apagar as chamas dos muitos palavrões desaforados
que saem em labaredas da nossa boca, depois de ser
extorquido descaradamente sem chance de se defender.
Então segui muito fulo, e virando a cara toda
vez que se aproximava de outra blitz ou posto de controle
policial, pra não ser parado novamente.
Daí em diante, não houveram muitas novidades
até chegar em Navarro, para pernoitar. As observações
são referentes as longas retas, muito calor,
e o dia começa a ficar mais longo. Pela manhã
seguimos rumo sul, até chegar na ruta 03, a
principal rodovia de ligação de Buenos
Aires até o extremo sul do país. Passamos
por Bahia Blanca, onde logo após fomos parados
por uma fiscalização sanitária,
que nos fez desmontar toda a bagagem. Depois deste
inconveniente, rumamos para o entroncamento que nos
levaria para a cidade de Viedma, sob um vento frio
que começou a incomodar, talvez por ser mais
de 21:00. Ficamos em uma pensão muito simples
e cara de duas anciãs em Major Buratovich.
III.
Primeiras sensações da Patagônia
Amanhecemos
na estrada sob ventos ora fortes, ora brandos, até
Viedma, onde rumamos em direção oeste
para uma cidadezinha que tem a ver com o nome, San
Antonio Oeste. Um trecho de cerca de 180 km com um
calor infernal, típico de regiões desérticas.
Como não tinha um termômetro, calculo
que beirava os 45°, calor igual só havia
visto em 2006 na ruta 07, um pouco antes de Mendonza.
Paramos em um posto na entrada da cidade. Descansamos
um pouco, bebemos muita água. Quando fui ligar
a moto para ir até a bomba abastecer, ela não
ligava o motor. Insisti e ela não ligou. E
agora? A moto quebrou! Pensei logo na bomba de combustível,
que provavelmente estaria queimada. Mantive a calma
o quanto pude, abri a caixa de fusíveis, chequei
todos e nada. Comecei a pensar na possibilidade da
viagem acabar ali mesmo. Na Argentina, não
existe este modelo, provavelmente a solução
seria trocar a peça, que teria que vir do Brasil
e...sinceramente, não sabia o que fazer. Apenas
comecei a preparar minha companheira para a possibilidade
de voltar de avião, e etc. Passaram-se cerca
de 3 horas nesta angústia, quando resolvi tentar
mais uma vez e... funcionou!!!
Montamos, fui para o centro da cidade para passar
numa oficina pra investigar o que aconteceu. Eu suspeitava
de superaquecimento. Mas, uma barreira policial estava
impedindo a entrada na cidade não sei por qual
motivo, mandavam todos seguirem rumo sul e como eu
não tinha nem abastecido, perguntei onde seria
o próximo posto, que foi indicado a 40 km adiante.
Cumpri as ordens, mas confesso que bastante preocupado,
e se o problema ocorresse novamente no meio do “nada”?
Fui até um posto no meio de um descampado,
longe de tudo. Êxitei um pouco pra desligar
a moto e abastecer...”E se não ligasse?”
Abasteci, e quando liguei a chave, tudo bem (ufa!).
Seguimos até Puerto Madryn onde pernoitamos
num “departamento” muito aconchegante.
No outro dia, refeitos do susto, continuamos no rumo
sul pela ruta 03. Passamos por Trelew, depois quase
400 km até Comodoro Rivadavia, onde começaram
uns ventos que pareciam que estavam mal intencionados
em derrubar a moto, a qualquer custo, tornando os
70 km até Caleta Olívia um martírio.
Tive que me esconder no vácuo de um caminhão
tanque pra conseguir guiar a moto. Depois de Caleta
Olívia, haviam alguns ventos, que foram abrandando
aos poucos, até sumirem quase completamente.
Chegamos em Fitz Roy para pernoitar, e ficamos em
umas “cabañas” que eram do delegado
da cidade, resultado, ele cobrava o preço que
quisesse. Como fazia muito frio, não discutimos,
nem pensamos em seguir até a próxima
cidade, porque ficava a 200 km mais ao sul, e naquela
temperatura, não seria inteligente seguir a
noite. Acordamos cedo, mas, ainda fazia bastante frio,
aguardamos algumas horas pra seguir com temperatura
agradável mais um trecho de cerca de 600 km
até Rio Gallegos, há 55 km da fronteira
com o Chile. Mesmo saindo mais tarde, chegamos com
luz do dia e sem pegar o frio mais forte, de quando
anoitece por lá, as 22:00!!!
Quando chegamos fizemos amizade com o dono da quitanda
do lado do hotel, Roberto Carlos, que confessou ser
apaixonado pelo Brasil, também com um nome
desses e flagrado assistindo o Raul Gil, queria o
quê?
IV.
O frio
Pela
manhã a temperatura é agradável,
uns 17°C. Abastecemos, depois partimos pra enfrentar
cerca de 600 km com quatro aduanas, uma balsa, 110
km de rípio, ventos de até 80 km/h e
muito frio. Os primeiros 55 km até o “Paso
Internacional Austral”, são tranqüilos,
sem ventos fortes ou imprevistos. Chegamos na fila
dos veículos, enorme, por sinal, encostamos
e reencontramos um casal de suíços,
que também estava a caminho de Ushuaia, só
que numa BMW 1200GS Adventure. Fomos fazer a papelada
e encontramos uma fila única sem fim, que estava
do lado de fora do prédio. Depois de muita
paciência e umas duas horas pra dar baixa em
um visto, que seria reativado no mesmo dia algumas
horas depois na aduana de San Sebastian, fomos para
próxima aduana, a chilena. Então o casal
resolveu vir conosco, por isso, eu andei devagar pra
não deixá-los pra traz (... :).
Chegamos no “transbordador” do Estreito
de Magalhães para uma travessia rápida.
Depois de mais de 7 mil km no asfalto, chegamos no
rípio, que algumas vezes me dava uns sustos,
mas, que no geral estava em condições
razoáveis. Assim, fomos devagar por 110 km.
No meio deste trecho, encontramos um engarrafamento
um tanto “diferente”: de ovelhas!! Passamos
no meio delas, e logo em seguida, o Simon, avistou
alguns conhecidos e freou forte na minha frente, com
um detalhe: a moto dele tem ABS, resultado: colidi
no fundo da moto dele, sem maiores problemas, foi
só um tombo. Até brinquei com a situação
dizendo-lhe “ que o meu ABS falhou!! Muitos
risos e tudo bem. Ele tentou fazer a volta, então,
a moto pendeu pro lado...chão. Machucou um
pouco a perna da companheira dele, sem gravidade.
Levantamos a moto, checamos a Helen, tudo em ordem.
Seguimos até as duas aduanas em San Sebastian
e de volta ao asfalto para mais 300 km. Como já
era 18:00, e fazia um frio intenso, pensamos em ficar
na cidade de Rio Grande e continuar no dia seguinte.
Fomos junto com o casal até lá, onde
nos despedimos, porque ele queria seguir “fast”.
Colocamos nossas capas de chuva, e decidimos enfrentar
o frio até onde desse pra ir. No caminho até
a próxima cidade antes de Ushuaia, Tolhuin,
pensei “Estamos no décimo segundo dia
de viagem, a pouco mais de 100 km de chegar, vamos
ficar na cidade antes por causa de 100 km???”.
Decidimos então, enfrentar um pouco mais de
frio e chegar de qualquer jeito naquele dia mesmo!!!
Foi dureza agüentar o frio nas mãos até
Ushuaia, mas fui compensado quando cheguei na entrada
da cidade as 22:07 e fotografei aquela placa de boas
vindas, um sonho!! Depois voltamos pra realidade.
Vamos procurar hospedagem para passar a noite. A primeira
opção que surgiu foi demasiadamente
cara, mas, depois de enfrentar 7.500 km, eu não
agüentaria mais rodar procurando outro lugar.
No outro dia, procuramos outra opção
mais barata, que depois de procurar bastante, encontramos
um pela metade do preço e menos da metade do
conforto do anterior, mas, como seria só pra
dormir, serviu. Deixamos a bagagem, então,
saímos para curtir o lugar e visitar a principal
atração: O Parque da Terra do Fogo.
$100,00 pesos na entrada, entramos para tirar fotos,
inclusive na placa famosa da Bahia Lapataia, final
da ruta 03.
Voltamos para fazer a revisão na moto e depois
jantar no apart hotel dos suíços, que
nos convidaram ao nos encontrar no parque, para um
prato típico (hum!!). Depois assistimos juntos
o pôr do sol as 22:15, nos despedimos e voltamos
para o hotel quando escureceu as 23:00!!!!! Impressionante!
Dia de voltar, muito frio na saída. Voltamos
pela mesma estrada, e já no começo um
imprevisto, Cláudia havia perdido uma das luvas,
que por causa do frio estava com três luvas
uma por dentro da outra, inclusive uma minha. Voltamos
pra procurar até encontrar. Seguimos ainda
com muito frio, e agora com ventos cada vez mais fortes.
Chegamos no rípio novamente, só que
desta vez acompanhados de rajadas de vento de até
80 km/h. Foi cada susto, que teve algumas situações
que tinha que parar pra não sair da estrada.
Vimos alguns acidentes por causa das condições
rigorosas do trecho, que me deixava apreensivo. Os
quilômetros pareciam ter ficado maiores, deixando
a impressão de distâncias maiores, pois,
eu queria sair era logo daquela situação
perigosa em que estávamos.
Finalmente, retornamos ao asfalto, mesmo assim o vento
ainda incomodava muito, porque, vinha em sentido contrário
com muita força. Abasteci na cidadezinha chilena
de Punta Delgada e segui rumo oeste, com vento contra,
sol na linha de visão, frio cada vez mais intenso,
noite se aproximando. Sob estas condições,
planejei dormir na cidade de Governador Phillips,
que estava a uns 80 km à frente, no entroncamento
que vinha de Punta Arenas.
Quando cheguei ao lugar, cadê a cidade? Foi
ali que eu não entendi nada, pelo mapa deveria
ter uma naquele lugar. Só tinha uma bomba de
combustível e a sede de uma fazenda do outro
lado da rodovia. Paramos no posto pra perguntar onde
ficava a cidade, mas, não tinha ninguém
pra informar nada, pelo horário já deveria
estar fechado. Atravessamos a ruta e paramos na porteira
da fazenda, não vimos ninguém, só
uma luz acesa na casa. Entramos e fomos até
a casa, chamamos, mas ninguém apareceu. Até
que um homem nos olhou a distância e voltou
pra dentro, acho que assustado com a nossa presença.
Insistimos, pois, o frio estava me congelando, principalmente
os dedos, que ardiam de maneira dolorosa.
Então ele apareceu, um pouco desconfiado. Não
perdi tempo e perguntei onde ficava a cidade. Pra
minha surpresa, ele respondeu, “aqui não
tem cidade nenhuma”. Fiquei confuso, pois, estava
lá no mapa, e agora? Eu não tinha mais
condições físicas de rodar cerca
de 50 km até Punta Arenas, estava preocupado
com a possibilidade de hipotermia, e não era
a toa, no termômetro da fazenda marcava 6°C,
com o vento a sensação térmica
deveria ser de cerca de zero grau!!! O jeito foi pedir
para ele nos ajudar com qualquer lugar pra ficar,
onde prontamente, ele nos atendeu. Nos convidou pra
sua casa, nos serviu um café com pão
e nos alojou em um trailer com fogão a lenha,
que servia de ponto de apoio para os trabalhadores
da fazenda, nosso hotel cinco estrelas naquela noite
gelada.
V.
Os encantos da Patagônia
Depois
de passarmos o maior frio das nossas vidas, naquele
extremo sul do Chile, o verdadeiro fim do mundo, na
minha opinião, levantamos bem cedo para seguirmos
as orientações do Juan, que nos explicou
que os ventos naquela região só começam
a ter força depois das 9:00 em média,
portanto, logo cedo, eles são brandos.
Nisso, pulei da cama gelada as 5:40 pra agradecer
ao nosso salvador, que pega no batente bem cedo. Ainda
fazia muito frio, acho que uns 6 ou 8°C, quando
agradeci a ele. Então, nos convidou para tomarmos
o café da manhã na casa com o pai dele,
pois ele já estava de saída. Tomamos
um café bem quentinho que ajudou a combater
o frio com o pai dele e seguimos após abastecer
na única bomba de combustível, que por
sinal era movida a gerador.
Pegamos a ruta 09 em direção noroeste
sob um frio intenso, o tempo nublado talvez explicasse
esta temperatura tão baixa. O vento apesar
de não incomodar o equilíbrio da moto,
incomodava pela temperatura extremamente baixa. Alcançamos
um caminhão e aproveitei para usar ele como
quebra vento, o que melhorou bastante a sensação
térmica e pudemos seguir até Puerto
Natales.
Como chegamos cedo pudemos procurar hotel com calma,
até encontrarmos um com preço bom, bastante
simples, mas, aconchegante, principalmente devido
ao atendimento atencioso da dona do lugar. Aproveitamos
para descansar, colocar algumas coisas em ordem, verificar
as condições dos próximos km,
etc. O frio, companheiro inseparável neste
trecho da viagem, ora apertava, ora diminuía,
além disso, os ventos fortes castigavam a cidade
de forma assustadora e a chuva aparecia e desaparecia
a todo instante. Como não havia condições
climáticas de visitar o parque das torres,
resolvemos ir no outro dia se estivesse melhor. O
clima não é confiável por aqui.
Levantamos um pouco tarde neste dia devido ao frio.
Depois do café, montamos na moto, abastecemos
e rumamos para o parque, onde rodaríamos uns
130 km de rípio. O tempo estava nublado, mas,
algumas vezes o sol aparecia. Outras vezes pancadas
de chuva gelada complicavam em alguns momentos na
estrada do parque, que tinha trechos de rípio
em boas condições de rodar, outros com
buracos, costelas de vaca, pedregulhos em subidas
mais íngrimes, ventos laterais tão fortes
que empurravam a moto para fora da estrada! Momentos
de extremo perigo porque eu não podia frear
e ficava momentaneamente sem controle, deixando que
parasse com o freio motor somente, rezando o tempo
todo pra não cair!!!
Mas, apesar de todos os riscos, a paisagem nos compensava
com um espetáculo a parte. Como se a natureza
nos mandasse um recado dizendo que qualquer sacrifício
para admirá-la, seria bem recompensado, e realmente
fomos. O Parque Torres Del Paine mostra toda a força
de encantamento que a Patagônia tem. Nos ajuda
a entender porque dois malucos montam numa moto pequena
cheia de bugigangas, roda durante muitos dias sob
calor e frio extremos só para admirar, mesmo
que por alguns instantes, um lugar que não
pode ser imaginado nem nos nossos melhores sonhos.
Se com as fotos não conseguimos traduzir bem
o que vemos, com palavras nem pensar!!!
Próximo do final deste dia, o tempo fechou
e uma chuva forte cobriu todas as atrações
do parque. Então aceleramos um pouco mais para
sair logo do Chile. Chegamos na fronteira juntamente
com nosso companheiro, o frio, é claro! Fizemos
as tramitações sob perguntas curiosas
dos agentes aduaneiros, principalmente dos argentinos
que foram muito cordiais, mostrando que o episódio
no norte do país, é restrito a aquela
região, como outros viajantes já haviam
me dito, que no restante da Argentina não teríamos
problemas com a policia. Seguimos pelo rípio
em boas condições de rodar, até
chegar no início da temida ruta 40, que segundo
os agentes, estava inicialmente asfaltada.
Chegamos nela, e com asfalto novo, um tapete! Agora
teríamos duas opções, seguir
até El Calafate por um atalho de 92 km de rípio,
ou rodar um pouco mais até a cidade de Esperanza
pelo asfalto, aumentando assim uns 100 km a viagem.
A decisão seria a menos racional, ou seja,
ir pelo rípio, se fosse mais cedo, mas, como
era por volta das 21:00 e logo iria escurecer, decidimos
pernoitar em Esperanza. Com o frio apertando cada
vez mais, e os ventos favoráveis, chegamos
rápido na cidade. Pernoitamos ao zunido do
vento nas frestas do hotel, pois o lugar venta muito,
sem exageros.
Seguimos em direção oeste, contra o
vento, subindo uma serra que fazia o frio endurecer
os dedos da mão. Parei algumas vezes para esquentar
as mãos no motor da moto, na inútil
tentativa de diminuir o sofrimento delas com a temperatura
baixa. Pelo frio, calculo que fazia uns 8°C ou
menos, devido a sensação térmica
provocada pelo vento forte, que balançava muito
a moto parada no descanso lateral, me assustando algumas
vezes. Sob estas condições começamos
a descer a serra já próximo a El Calafate.
Chegamos na cidade para abastecer, comermos algo,
estudar o mapa, e durante esta parada, encontramos
um brasileiro numa KTM que chegava da ruta 40 norte
e nos preveniu das péssimas condições
que enfrentaríamos.
Fomos visitar o Parque dos Glaciares, onde fica a
maior atração daquelas paragens: O Glaciar
Perito Moreno. $120,00 pesos pra entrar, que depois
seriam justificados pelos investimentos em infra-estrutura,
com a pavimentação de todas as estradas
do parque, que eram antes de rípio e pela admiração
ao avistar o gigante de gelo.
O Glaciar é realmente impressionante! São
cerca de 250 km quadrados de puro gelo, com paredes
que variam de 60 a 80 metros de altura, em meio a
uma paisagem deslumbrante. Em alguns momentos pedaços
enormes de gelo se soltam emitindo um estalo forte
e mergulham nas águas verdes do lago, produzindo
belas e violentas ondas. Tiramos muitas fotos, filmamos,
nos encantamos e acabou...tivemos que voltar daquele
lugar que deixou muita saudade. Pernoitamos em El
Calafate e nos preparamos psicologicamente para enfrentar
o trecho mais temido de toda a viagem...a ruta 40!
VI.
Agonia no rípio
Deixamos
El Calafate com o tanque bem cheio e com um botijão
carregando 5 litros de reserva. Estava com cerca de
25 litros de combustível, não havia
garantia de encontrar lugar para abastecer com combustível
disponível!!! Isso mesmo... haveria a possibilidade
de encontrar postos secos no caminho, o que poderia
ser um grande problema, pois, as distâncias
astronômicas entre as cidades inviabilizariam
qualquer tentativa de buscar gasolina na próxima
cidade.
Os primeiros 30 km foram de asfalto até chegar
no entroncamento da ruta 40, que para nossa surpresa
estava asfaltado no trecho inicial de 70 km. Quando
acabou o asfalto rodamos por um trecho de 10 km de
rípio e depois retornamos ao asfalto por mais
alguns quilômetros, uns 20 talvez, quando terminou
o trecho asfaltado definitivamente. Daí pra
frente foi rípio até enjoar, algumas
vezes ele permitia rodar a 80 km/h, outras a menos
de 10 km/h. A grande preocupação era
com danos no chassi da moto que poderiam ser provocados
pelas muitas costelas de vaca, que sacudiam a moto
como se fossem desmontá-la. Então, era
obrigado a andar com mais cautela do que o normal,
sendo que não adiantava rodar devagar, nem
rápido, nem frear, não tinha jeito de
diminuir o desconforto. Aquela situação
dava uma agonia, me sentia em uma luta desigual, como
se a estrada estivesse contra mim!
Houveram situações complicadas com a
sinalização, como existem trechos em
asfaltamento (ainda bem!!), não haviam placas
indicativas em alguns cruzamentos ou bifurcações,
que me forçavam a tomar uma decisão
instintiva que poderia nos meter em alguma enrascada
se fosse na direção errada, como por
exemplo, o risco de ficar sem gasolina no meio de
um nada absoluto, onde muito raramente passava um
veículo. Tanto que, num cruzamento que indicava
um posto de gasolina, fiquei procurando onde ficava
o tal posto, e fui rodando, rodando, até perceber
que tinha passado direto daquele raro ponto de abastecimento.
Voltar pra procurar, nem pensar, naquelas condições
de piso, não havia margem pra se dar esse luxo.
Nestas condições, rodamos uns 290 km
até chegar no entroncamento para a cidade de
Governador Gregores, há 67 km daquele ponto,
onde encontraríamos posto, restaurante, água,
etc. Porém ir até lá, aumentaria
uns 70 km de estrada de rípio, porque teríamos
que sair da ruta 40, então, ficamos na dúvida,
parados raciocinando o que fazer. Era uma decisão
difícil porque envolvia uma série de
fatores, a próxima cidade, Bajo Caracoles,
estava a cerca de 200 km adiante. Fui analisando o
nível de combustível que ainda tinha
no tanque, mesmo depois de rodar tanto, o danado ainda
tinha uns 10 litros!!! Cláudia ajudou a bater
o martelo, coloquei ela na situação:
“Temos cerca de meio tanque ainda, mais uma
reserva no botijão de 5 litros, na pior das
hipóteses, temos como rodar mais uns 300 km
e a cidade está a 200, ou seja temos uma margem
de segurança de mais de 100 km, vamos encarar
e reduzir estes 70 km de rípio?...Vamos!!”.
Com a decisão tomada, seguimos. Confesso que
mesmo com toda essa margem, fiquei apreensivo, será
que a moto vai rodar mesmo até 500 km sem faltar
gasolina??!! Será que não fiz o cálculo
errado? Agora, já era tarde, como havia dito
antes, voltar não dava, o único jeito
era avançar. Ficava fazendo e refazendo as
contas o tempo todo, preocupado com a distância
sem abastecer, afinal tinha deixado pra trás,
dois abastecimentos, e em um lugar como aquele, ninguém
em sã consciência, arriscaria desta maneira,
eu não sabia qual estava sendo o consumo médio
naquele trecho, mas, percebi que a moto estava economizando
muito.
Quando a fome apertou, paramos na beira da estrada,
próximo a um grupo de guanacos, que correram
assustados. Tínhamos um pouco de comida e água,
para aliviar, não tinha onde comprar nada,
portanto, dinheiro não tem o menor valor aqui,
e sim, o que vale, é o planejamento de trazer
reservas na bagagem. A outra opção,
é ficar com sede e fome o dia inteiro até
chegar na cidade. Enquanto comia aquele almoço
formidável, pensava de como a vida naquele
canto do mundo deveria ser difícil. Tudo longe,
não tinha estrutura nenhuma, estradas ruins,
sem hospitais, escolas, combustível, hotéis,
nada, absolutamente nada. A sensação
de solidão era grande, mas, ao mesmo tempo
uma paz de espírito invadia minha mente, sem
ladrões, sem poluição, sem engarrafamentos,
sem barulhos, o único som era do vento e só!!
Montamos na magrela e tocamos pra frente, sempre devagar,
primeira, segunda, terceira, quando dava, uma quarta,
reduzia novamente, marcha lenta, até que avistamos
uma miragem: uma linha negra no meio do deserto...
“É asfalto, Cláudia?!!!Éééééé...”,
me respondeu aos berros de euforia, parecia que tinha
ganho algum prêmio da loteria. Mas, como aqui
tudo tem seu preço, durante a comemoração,
fui sentindo uns ventinhos mais fortes, e mais fortes,
até virarem rajadas de vento contra, que me
deixaram muito preocupado com o consumo, que deveria
aumentar bastante e colocaria em risco todos os cálculos
feitos antes.
Este trecho, pra nossa infelicidade/felicidade, durou
40 km, até retornarmos pra mais 120 km de rípio.
Nestes quilômetros as condições
mudavam tanto que tinha lugares que me pegava rodando
a 100 km/h, já em outros, rodava a 5 km/h,
e parava, e andava mais um pouco, sentia me arrastando
pelo caminho. Passamos por um veículo que sofreu
um capotamento, mas não machucou muito os ocupantes.
A cidade de Bajo Caracoles, parecia ficar mais longe
a cada km que rodávamos, devido a precariedade
do pavimento, que a medida que nos aproximávamos
da cidade ia piorando por causa das obras de pavimentação.
As vezes me sentia consolado, porque sabia que numa
possível nova visita a região, talvez
não encontre mais rípio, pois, eles
estão se esforçando para pavimenta-la
completamente, ou seja, eu faria parte da história
do rípio, como um dos últimos a passar
por ele na famigerada ruta 40.
VII.
Velho oeste
Finalmente chegamos
no c...quero dizer, num dos lugares mais isolados
que já vi, Bajo Caracoles. O lugar é
totalmente isolado mesmo, lembra muito uma cidade
do velho oeste americano. Pra todo lado que se olha,
só se vê deserto. A cidade não
tem mais do que 10 casas, uma bomba de combustível
e pasmem, dois hotéis. Sendo que um deles é
todo feito de material reciclado, onde pernoitamos.
Neste hotel, conhecemos dois italianos e um inglês
aposentado que viajava de moto também.
Pela manhã, fui abastecer, afinal de contas
havia rodado 500 km sem abastecer, com isso fiquei
curioso em saber qual a autonomia da moto. O frentista,
que por sinal era o dono do outro hotel, demorou de
nos atender, talvez tenha ficado com raiva por nos
hospedarmos no concorrente. Mas, veio, meio contrariado
encheu o tanque com 18,2 litros de gasolina!!!!!!!!!!!!
Recorde!!!! Média de 27,5 km com um litro,
com todo aquele peso e naquelas circunstâncias,
um número muito bom.
Voltamos a rodar na ruta 40, acompanhados do Richard
numa BMW 1.000 cc, ano mil novecentos e bolinha, nos
128 km até a cidade de Perito Moreno. Nos primeiros
75 km, rípio em péssimas condições,
era uma tortura psicológica sentir a moto sacudindo
parecendo que iria partir o quadro ao meio. Houveram
trechos que rodávamos a 80 km/h, só
que o Richard queria andar o tempo todo a 80, mas,
tinha locais que era inviável rodar naquela
velocidade, então, deixei de acompanhar o ritmo
dele e passei a fazer o meu mais cauteloso. Já
havíamos rodado tanto sem ter problemas mecânicos
sérios, não seria agora que arriscaria
quebrar o chassi, como relataram outros viajantes
que passaram por aqui.
Voltamos para o asfalto, comemoração
de ambos, asfalto bom até a cidade. Quando
chegamos pausa para um refresco no posto, muita conversa
em inglês, que foi bom para desenferrujar o
meu, depois completamos o tanque. Durante o abastecimento,
aproveitei para confirmar a informação
que haviam me passado dos próximos 120 km de
rípio até a cidade de Rio Mayo, que
seriam os piores de toda a ruta 40. O frentista, confirmou
esta informação fazendo uma ressalva
sobre a péssima condição da via.
Logo perguntei, “pior do que o trecho que passamos?!”,
ele respondeu enfatizando que sim, muito pior.
Como eu já estava desistindo de seguir pelo
rípio até Bariloche, sabia que seriam
somente mais 120 km nele e depois asfalto o tempo
todo, mas, rodar no rípio já não
é bom, sabendo que seria o pior trecho dele
a se atravessar, esta informação só
ajudou a ter certeza da decisão de mudar o
roteiro original.
Nunca vou saber se tomei a decisão certa ou
não, mas, preferi a segurança do asfalto,
a incerteza do rípio. Cortamos o país
do oeste para o leste, com vento favorável
e temperatura agradável, chegamos em Caleta
Olívia, e fomos para Comodoro Rivadavia, sob
os já conhecidos ventos laterais que enchiam
a paciência ao balançar a moto o tempo
todo. Quando chegamos, procuramos hotel, uma exploração
absurda nos preços. Mesmo assim ficamos.
VIII.
Agora, o calor
Na manhã
seguinte, subimos mais um pouco pela ruta 03 em direção
norte, até a cidade de Sierra Grande, onde
pernoitamos. Ficamos combinados de acordar bem cedo,
e rodar o quanto desse até meio dia, para aproveitar
a temperatura mais branda, já prevenindo para
não acontecer o que aconteceu na ida, quando
a moto não pegava. Saímos às
7 da manhã com a temperatura agradável,
e ao cruzarmos a região de San Antônio
Oeste por volta das 9, sentimos um calor forte. Aquilo
lá parece estância de férias do
capeta...é muito quente, as 9 da matina, já
estava fazendo mais de 30°!
Abastecemos e saímos logo daquele lugar, para
rodar os poucos mais de 200 km até Rio Colorado.
A medida que nos aproximávamos acho que aumentava
uns 5°C a cada hora. Chegamos em Rio Colorado
por volta do meio dia, uns 40 e poucos graus na sombra!
Almoçamos, abastecemos e procuramos um lugar
para uma parada estratégica. Nos indicaram
o camping municipal, um oásis.
Adentramos o lugar pagando $2,00 pesos, procurando
uma sombra para esperar a onda de calor passar. Já
havia rodado mais de 300 km até ali, então,
estava tranqüilo, poderia ficar até as
16 horas descansando para seguir viagem. Muitos banhos
e sombra, mas o calor não dava trégua.
Muita água, refrigerante (1,5 litros!), banho
e nada. Que calor é esse?! Imaginava como estaríamos
sofrendo se continuássemos rodando?
Nisso, o tempo passou e chegou a hora de voltar para
a estrada. Já era por volta das 16:30 e o calor
continuava intenso na rodovia, imaginem se não
parássemos? Até Bahia Blanca, paramos
muitas vezes durante os 140 km. Contornamos a cidade
que tem umas entradas e saídas complicadas,
até achar a estrada para Coronel Pringles,
onde chegamos na boquinha da noite.
Quando amanheceu saímos com a intenção
de dormir em Buenos Aires, ou um pouco antes. As informações
de distâncias eram contraditórias, você
via uma placa, rodava uns 10 km e a outra informava
uma distância maior do que a anterior. Com essa
guerra de informações, chegamos a Cañuales,
há 60 km de Buenos Aires. Cláudia insistia
na idéia de passear na capital federal argentina,
com todas aquelas tralhas penduradas na moto e eu
dizendo o tempo todo que não era uma boa idéia,
seria muito arriscado, que no mínimo nos roubariam
a bagagem, a máquina, etc.
IX.
Exploração
Saímos
de Cañuales na direção de Buenos
Aires. Auto pista, pedagiada, onde moto paga a cada
10 km. Chegamos na capital que nem sentimos. Fui fazer
a besteira de perguntar no pedágio como faria
para chegar no Buquebus, só faltaram me bater
com um chute na bunda, foi tanta gente buzinando que
eu não conseguia nem ouvir o policial dizendo
“ vaza!!”. Com tanta delicadeza, segui
rodando na auto pista sem orientação,
até que apareceu uma placa indicando Mar del
Plata, logo saquei que estava saindo de Buenos Aires
pela via expressa para o litoral. Peguei o primeiro
retorno e quando retornei para a auto pista, dei de
cara com dois policiais parados a margem da rodovia
em duas TDM 900! Parei e perguntei como chegar ao
Buquebus? Foram muito simpáticos (só
fiquei atento a aquele sorrisinho descarado no canto
da boca que não me trazia boas recordações!)
e me indicaram o caminho. Eu deveria ter perguntado
cadê o mata-fuego das suas motos? Quer saber,
deixa pra lá, é melhor.
Perguntamos novamente a outros policiais (estávamos
abusando da sorte, eu sei, mas era o único
jeito!) que nos orientou e fomos parar lá.
Em cima do horário de saída, fizemos
toda tramitação, mas na hora de pagar
quase cai pra trás com o preço...$417,00
pesos. Não tinha outra alternativa, a não
ser passar pela região de Concórdia
novamente e...o resto da história eu já
contei.
O Buquebus é coisa de primeiro mundo, tem até
um shopping com artigos de luxo para vender. A travessia
foi rápida até Colônia Del Sacramiento,
cerca de uma hora. Desembarcamos e fomos direto cambiar
todo dinheiro estrangeiro que havia nas mãos.
Em seguida, rodamos em direção a Montevidéu.
Quando chegamos na capital uruguaia, não vimos
nada interessante, só uns prédio velhos,
muitas indústrias. A medida que andamos pelo
lugar, mais exatamente após a zona portuária,
fomos encontrando, pontos interessantes para uma foto,
resultando em imagens bonitas. Continuamos pela orla,
até voltarmos a rodovia que nos levaria a Punta
Del Leste.
Ao chegar na cidade, tratamos de procurar logo um
lugar pra ficar, já estava anoitecendo e pretendíamos
pernoitar por lá mesmo. Perguntamos em uns
hotéis o preço, então a recepcionista
começou a dizer o preço...95, pensei
que legal, o preço é muito bom... então
ela completou...dólares! O quê? Que preço
absurdo!! Convertendo para Reais, estamos falando
em cerca de R$ 220,00 só por uma noite! Em
um hotel simples, uma espelunca, melhor dizendo! Fiquei
horrorizado! No dinheiro deles seriam, 2.200,00 pesos
uruguaios, um roubo.
Então começamos a procurar, por preços
mais acessíveis. Procuramos em outro, sai correndo
antes que batessem minha carteira, depois mais outro,
e outro, tantos que perdi as contas, até chegarmos
em um que me cobraram descaradamente $32,00 dólares
por pessoa em um quarto que seria divido com mais
6 pessoas estranhas. Sai de lá o mais rápido
possível pensando que lugar mais estranho,
só tem ladrão aqui, é?
Fomos até um que nos disseram ser o mais barato
da região: $90,00 dólares! Quando já
estava disposto a ir arriscar em outra cidade, o recepcionista
perguntou, “quanto você tem?” Eu
pensei, “pronto, chamou pra negócio”.
Todo dinheiro que tenho é $1.500,00 uruguaios,
que daria cerca de R$ 150,00 ou um pouco mais de 60
dólares, que já era muito. Mas, pelo
horário avançado e a incerteza de encontrar
hospedagem em outra cidade, só nos restava
pagar o preço pela ingenuidade em querer ficar
em uma cidade de turismo de alto nível, pagando
pouco, mais uma lição.
Pela manhã, completamente lisos, seguimos somente
com um dinheiro para abastecer e chegar no Brasil
por Chuí.
X.
Meu Brasil brasileiro!
Estamos
de volta a nossa pátria amada. Como não
havia comitê de boas vindas na fronteira, seguimos
pelo Banhado do Taim, até a cidade de Pelotas.
Depois rodamos até a região metropolitana
de Porto Alegre e pernoitamos na cidade de Esteio,
num motel, que era a opção mais barata,
afinal, a grana tinha ficado toda em Faca Del Leste...digo...Punta
Del Leste.
De lá fomos em direção a Curitiba
via Serras Gaúchas (BR 116), em um domingo
ensolarado de rodovias tranqüilas e curvas divertidas.
Pernoitamos 100 km antes da capital paranaense, em
Mafra-SC. Depois de uma noite bem dormida, levei a
moto para uma revisão na mesma cidade, o que
atrasou um pouco nossa saída. Logo após
a revisão, pegamos a 116 novamente, mas, não
entramos em Curitiba, seguido direto pela Régis
Bitencurt, até São Paulo, onde encontraríamos
o Francisco.
Como saímos meio-dia de Mafra, anoiteceu antes
de chegar na capital paulista, uns 100 km antes passamos
pela serra mais perigosa da Régis a noite,
com um trânsito intenso de carretas, explicando
porque este trecho é tão perigoso. Quando
cheguei um pouco antes da cidade, liguei para nosso
amigo, para marcar o local de encontro. Combinamos
na saída do anel viário que dava acesso
a Castelo Branco, no posto de pedágio. Quando
cheguei ao local combinado, um pequeno problema técnico,
não havia telefone no lugar e nossos celulares
estavam com as baterias descarregadas. Como avisá-lo
da nossa chegada? Como estávamos parados próximos
de uma viatura da Policia de S. Paulo, o policial
viu nossa agonia tentando ligar o celular e nos cedeu
cordialmente uma ligação, que nos ajudou
a avisar o Francisco.
Combinamos em um ponto mais a frente, na outra praça
de pedágio. Agradecemos ao policial Wilson
e rumamos para o outro ponto. No caminho, pegamos
a via errada e paramos na Marginal Tiête. No
primeiro posto de combustível, parei e liguei
novamente para o Francisco, que finalmente nos encontrou.
Depois de acomodados, fomos descansar. Aproveitamos
para descansar logo durante todo o dia na capital,
onde rodamos de metrô pelo centro, nos pontos
comerciais da cidade, inclusive a General Osório,
a Meca dos motociclistas.
Como nosso amigo Gustavo estava chegando de viagem
da Austrália, aproveitei a oportunidade para
reencontrá-lo no Rio de Janeiro. Saímos
de São Paulo, sob chuva, que aumentava de intensidade
e diminuía durante todo o trajeto da Dutra
até o Rio. Chegamos na capital fluminense,
com um certo receio. Não conhecia os pontos
da cidade, e a sinalização era precária.
Mesmo assim, chegamos em Copacabana, após errar
as entradas algumas vezes, mas, cheguei.
Nosso reencontro com Gustavo, depois de 5 anos, foi
emocionante e ele nos apresentou seus grandes amigos
cariocas, o Murilo e a Débora, que nos acolheu
como a dois irmãos. Muita coisa pra conversar,
fotos pra ver, que foi impossível falar tudo.
Visitamos pontos turísticos da cidade, como
o metrô de Copacabana, o shopping Rio Sul, o
Cristo Redentor, as praias de Ipanema e Copacabana.
Foi um dia totalmente aproveitado.
XI. Em casa
É hora
de partir. Seguimos sob uma avalanche de fotografias
do Gustavo, em direção a ponte Rio -
Niterói. Daí em diante, foi só
rodar até Campos, onde tomamos um grande susto
com dois caras que entraram na lanchonete e ficaram
em atitude suspeita. Precavido, como sempre, tratei
de sair do posto em direção oposta,
ou seja voltando para a capital, para se caso houvesse
alguma má intenção por parte
da dupla, eles não encontrariam facilidade.
Tudo isso, porque no dia anterior dentro do táxi
que nos levava ao Cristo, o motorista começou
a perguntar um monte de coisas de maneira estranha,
suspeita mesmo, sobre minha moto. Eu fiquei cismado
o tempo todo com aquela atitude dele.
Não quero nem saber se estava com razão
ou não, só sei que tratei de me mandar
logo dali, até chegar em Vitória, lugar
onde enfrentamos um trecho em obras e trânsito
lento por muitos quilômetros, mais exatamente
até a cidade de Linhares, onde pernoitamos.
Rumamos pela manhã, em direção
ao sul da Bahia. Paramos em Itamarajú para
trocar o peão da transmissão, que estava
muito gasto. Depois estrada novamente até Itabuna.
Pernoite.
No último trecho desta viagem, de cerca de
400 km, não houveram novidades. Chegamos em
casa depois de rodar 16.164 km, sendo cerca de 900
destes no rípio. Foi de arrepiar mesmo!!!
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